A minha PJ também é do Simples Nacional. Então, quando comecei a ler sobre a Reforma Tributária para escrever sobre IA, percebi que o assunto não era teórico para mim: tem uma escolha com prazo acabando agora, e uma mudança que chega em janeiro para toda pequena empresa do país.
Vou separar as duas, porque elas se confundem fácil e têm prazos diferentes. E antes de tudo o aviso honesto: eu sou desenvolvedor, não contador. Este texto serve para você chegar na conversa com o seu contador sabendo o que perguntar, não para substituir essa conversa.
A reforma em um parágrafo
Cinco tributos sobre consumo (PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS) vão virar basicamente dois: a CBS, federal, e o IBS, dividido entre estados e municípios. A troca não acontece de uma vez. Ela vai de 2026 a 2032, e o sistema novo só fica completo em 2033.
| Quando | O que acontece |
|---|---|
| 2026 | Ano de teste. CBS de 0,9% e IBS de 0,1%, compensados com o PIS e a Cofins. Para o Simples, nada muda. |
| 2027 | A CBS entra com alíquota cheia, PIS e Cofins deixam de existir e o IPI é zerado (exceto na Zona Franca de Manaus). O Simples passa a destacar IBS e CBS na nota. |
| 2029 a 2032 | ICMS e ISS vão diminuindo aos poucos, enquanto o IBS cresce. |
| 2033 | O sistema novo passa a valer por completo. |
A escolha que vence dia 30 de setembro
A lei criou uma opção nova para quem está no Simples: continuar no Simples para todo o resto, mas recolher o IBS e a CBS por fora, pelas regras do regime regular. É o que está sendo chamado de Simples híbrido. A empresa não sai do Simples.
Os detalhes, conferidos no Portal do Simples Nacional:
- A janela vai de 1º a 30 de setembro de 2026, e a regra está na Resolução CGSN nº 186/2026.
- A escolha vale para janeiro a junho de 2027. Não é para o ano inteiro.
- Dá para desistir até o último dia de novembro de 2026.
- Quem não escolher agora não perde a chance: a partir de 2027, a opção abre em março e setembro de cada ano.
- Quem não faz nada continua como está, com tudo dentro do DAS.
Por que alguém escolheria pagar por fora?
Por causa do crédito. No sistema novo, a empresa que compra de você pode abater o imposto que veio embutido na sua nota. Quem recolhe dentro do Simples passa um crédito menor para o cliente. Quem recolhe por fora passa o crédito integral, como diz a Agência Gov: é o que evita que o seu produto ou serviço fique "comercialmente desinteressante" na cadeia.
Traduzindo para o dia a dia:
- Se você vende para outras empresas, e elas vão olhar o crédito na hora de escolher fornecedor, o híbrido pode fazer sentido. Pode ser a diferença entre ser escolhido ou trocado por um concorrente fora do Simples.
- Se você vende para o consumidor final, que não aproveita crédito nenhum, é bem provável que continuar como está seja o certo. Recolher por fora costuma dar mais trabalho e pode pesar mais no bolso.
É uma conta que depende do seu faturamento, da sua margem e de quem são os seus clientes. Por isso a recomendação é uma só: ligue para o seu contador esta semana, com esta pergunta na mão, antes do dia 30. A opção é feita no próprio Portal do Simples Nacional.
A mudança que chega para todo mundo em janeiro
Essa é a parte que pouca gente está olhando. Faça a escolha que fizer em setembro, a partir de 2027 a nota fiscal do Simples passa a destacar o IBS e a CBS. Isso significa campos novos na nota e a classificação fiscal certa de cada produto e serviço.
Aqui entra o lado técnico, que é o meu mundo. O quanto isso vai dar trabalho depende de quem emite a sua nota:
- Você usa o emissor gratuito ou um sistema de gestão pronto, de prateleira: quem atualiza é o fornecedor. O seu trabalho é cobrar a data por escrito e conferir o cadastro dos produtos.
- A sua empresa tem sistema próprio, loja virtual própria ou uma integração feita sob medida emitindo nota: ninguém vai atualizar por você. Alguém precisa abrir esse código antes de janeiro.
A lista para conferir ainda este ano
- Descubra quem emite a sua nota. Parece óbvio, mas em muita empresa a resposta é "um sistema que um sobrinho fez em 2019".
- Pergunte se o sistema já preenche os campos de IBS e CBS, e peça a resposta por escrito, com data.
- Revise o cadastro de produtos e serviços. O imposto novo é calculado a partir da classificação de cada item, e cadastro bagunçado vira nota errada.
- Teste antes de janeiro. Todo emissor sério tem um ambiente de teste. Emita notas de teste lá, não na primeira semana de 2027.
- Confira o dinheiro, não só a nota. O que entrou no banco bate com o que saiu em nota? Essa conferência, a conciliação, fica ainda mais importante com o split payment, o mecanismo previsto na reforma que separa o imposto no momento do pagamento. Ele merece um post só dele.
Onde isso encontra a IA
No post anterior eu contei como o mercado está trocando "vender a ferramenta" por "entregar o resultado". A reforma é o exemplo mais claro que eu conheço disso.
Nenhum dono de pequena empresa quer um "software da reforma tributária". Ele quer duas coisas: que a nota saia certa em janeiro e que o mês feche sem surpresa. Conferir nota contra extrato, item por item, todo mês, é exatamente o tipo de trabalho que um agente faz bem: é repetitivo, dá para verificar se ficou certo, e erro custa dinheiro com data marcada. O julgamento, que é a escolha de regime, a interpretação da lei e a assinatura, continua com o contador.
É por isso que escolhi a reforma como o primeiro caso prático dessa virada aqui na BPSO. Mas o primeiro passo não tem nada de IA: é a lista acima, e uma ligação para o contador antes do dia 30.
Eu olho o código e digo o que precisa mudar para 2027: os campos, o cadastro e o teste. Sem juridiquês, e sem invadir o trabalho do seu contador.
Ver como eu trabalho com sistemas →
Fontes oficiais conferidas em 26 de setembro de 2026: Portal do Simples Nacional (prazos de opção), Agência Gov e Receita Federal, "Entenda a Reforma Tributária do Consumo". Este texto é informativo e não substitui a orientação do seu contador.